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Quando uma mulher decide fazer o congelamento de óvulos ou de fertilização in vitro (FIV), uma das dúvidas que mais aparecem é muito objetiva: “Existe alguma coisa que eu possa fazer para aumentar o número de óvulos congelados?”

A pergunta faz sentido. Afinal, o número de óvulos maduros armazenados é um dos fatores considerados na estimativa das possibilidades futuras do tratamento, sempre junto com uma informação ainda mais importante: a idade em que esses óvulos foram congelados.

Mas existe uma ideia que precisa ser corrigida desde o começo: aumentar o número de óvulos não significa simplesmente aumentar a dose dos medicamentos.

Os ovários possuem um limite biológico. A quantidade de folículos disponíveis naquele ciclo depende principalmente da reserva ovariana, da idade e da resposta individual à estimulação.

O que podemos fazer é trabalhar com estratégia para tentar aproveitar da melhor maneira possível o potencial existente naquele ovário.

E essa diferença — entre “fabricar mais óvulos” e “otimizar a resposta disponível” — é fundamental para criar expectativas realistas sobre o tratamento.

De onde vêm os óvulos?

Antes de falar das estratégias, é preciso entender rapidamente o que acontece nos ovários durante um ciclo.

A mulher possui folículos ovarianos em diferentes estágios de desenvolvimento. Dentro desses folículos ficam os óvulos.

No ultrassom conseguimos visualizar os chamados folículos antrais, pequenas estruturas que têm potencial para responder às medicações utilizadas durante uma estimulação ovariana.

Por isso, dois exames são particularmente úteis antes do tratamento: o AMH, hormônio antimülleriano, e a contagem de folículos antrais pelo ultrassom.

AMH e contagem de folículos estão entre os melhores marcadores disponíveis para estimar como os ovários provavelmente responderão à estimulação e quantos óvulos poderão ser obtidos. Eles não determinam, porém, a qualidade dos óvulos nem garantem determinado resultado reprodutivo.

Uma paciente que possui poucos folículos disponíveis naquele momento tende a obter menos óvulos do que outra com uma reserva ovariana maior.

Isso não significa que o tratamento esteja errado. Significa que existe uma biologia de base que precisa ser respeitada.

Mais medicação significa mais óvulos?

Não necessariamente. Essa é uma expectativa relativamente comum quando iniciamos um tratamento de congelamento de óvulos.

Se determinado ovário respondeu com poucos folículos, parece intuitivo pensar: “Então é só aumentar ou dobrar a dose da medicação”. Mas a fisiologia ovariana não funciona dessa maneira.

Ao longo do tempo, pequenos grupos de folículos deixam o estado de repouso e iniciam seu desenvolvimento. Entre eles, existe uma coorte de folículos recrutáveis, que pode responder aos hormônios utilizados durante a estimulação ovariana. São esses folículos que tentamos estimular para que vários cresçam simultaneamente e possamos obter mais óvulos na coleta.

As medicações, portanto, não criam novos folículos e não retiram do repouso, de forma imediata, os milhares de folículos primordiais que ainda permanecem armazenados no ovário. Elas atuam principalmente sobre os folículos que já chegaram a uma fase em que são capazes de responder ao estímulo hormonal.

E aqui entra a importância da reserva ovariana: de maneira geral, quanto menor o estoque folicular remanescente, menor tende a ser a população de folículos recrutáveis disponível para responder à estimulação. É por isso que uma mulher com baixa reserva ovariana pode apresentar poucos folículos em crescimento mesmo quando utilizamos doses elevadas de gonadotrofinas.

A dose da medicação importa e deve ser individualizada para que possamos aproveitar da melhor forma possível a coorte disponível naquele ciclo. Mas, a partir de determinado ponto, aumentar progressivamente a dose não significa obter um aumento proporcional no número de folículos ou de óvulos.

Por isso, diante de uma resposta abaixo do esperado, a estratégia não deve ser simplesmente “usar mais hormônio”. Precisamos analisar a idade, a reserva ovariana, a contagem de folículos antrais, a resposta a tratamentos anteriores, o protocolo utilizado e o comportamento dos folículos durante a estimulação para entender se — e como — aquele ciclo pode ser otimizado.

Essa é a base das estratégias que utilizamos.

Estratégia 1: escolher adequadamente quando iniciar a estimulação

Tradicionalmente, muitos ciclos de estimulação ovariana começam no início da menstruação.

Hoje sabemos que o desenvolvimento folicular não acontece necessariamente em uma única onda por ciclo. Existem diferentes ondas de recrutamento, o que abriu espaço inclusive para protocolos iniciados em outras fases do ciclo em situações selecionadas.

Na prática, principalmente quando existe baixa reserva ovariana, a avaliação ultrassonográfica pode ajudar a entender como os folículos estão distribuídos naquele momento.

Buscamos um grupo de folículos que apresente condições favoráveis para responder de maneira relativamente sincronizada à estimulação.

Isso não significa que exista um “dia perfeito” capaz de multiplicar o número de óvulos. Significa que o timing pode fazer parte da estratégia individualizada, sobretudo em pacientes nas quais cada folículo potencialmente recrutável ganha maior importância.

Também por isso, eventualmente uma paciente pode fazer mais de um ultrassom antes de iniciar a medicação.

Esperar alguns dias, quando existe uma razão clínica para isso, não significa necessariamente perder tempo.

Pode significar observar melhor o comportamento dos ovários antes de definir a estratégia.

Estratégia 2: cuidar da saúde antes do congelamento

Existe uma pergunta inevitável: “O que eu posso fazer antes do tratamento?”

Primeiro, é importante evitar falsas promessas.

Não existe dieta, suplemento, chá, vitamina ou mudança de estilo de vida capaz de aumentar significativamente a reserva ovariana ou devolver os óvulos que já foram perdidos.

Mas cuidar da saúde antes de tentar uma gestação ou passar por um tratamento reprodutivo continua fazendo sentido sim!

Isso inclui alimentação equilibrada, atividade física adequada, sono de qualidade e cessar tabagismo e drogas.

O objetivo não é criar um “protocolo perfeito de fertilidade” nem colocar sobre a mulher a responsabilidade pelo resultado de sua estimulação.

É chegar ao tratamento nas melhores condições gerais possíveis.

E vitaminas e suplementos?

Aqui precisamos ter bastante cuidado. Existem diversos suplementos propostos em Reprodução Humana, como coenzima Q10, vitamina D, antioxidantes, mio-inositol, N-acetilcisteína, resveratrol e outras substâncias.

Esses compostos ganham ainda mais atenção no grupo de pacientes com baixa reserva ovariana pois, nesse grupo, o arsenal de estratégias é mais limitado.

E esse é um campo no qual aparecem com frequência tratamentos complementares apoiados por estudos pequenos, resultados conflitantes ou evidências ainda insuficientes.

A diretriz atualizada da ESHRE sobre estimulação ovariana, por exemplo, dedica atenção especial aos tratamentos adicionais utilizados em pacientes com baixa resposta e mantém cautela em relação a várias dessas intervenções. Para testosterona antes do tratamento, por exemplo, a recomendação da diretriz é atualmente condicional contra seu uso rotineiro nesse grupo.

Por isso, suplementação e tratamentos hormonais adicionais não devem ser encarados como receita de internet. Eles podem ser utilizados sim, mas, quando utilizados, precisam ter indicação médica individualizada, com discussão sobre benefício esperado, limitações e possíveis riscos.

Estratégia 3: individualizar o protocolo de estimulação

Essa talvez seja uma das etapas em que mais entra o raciocínio clínico.

Não existe um único protocolo de estimulação ovariana que seja ideal para todas as mulheres.

Uma paciente de 31 anos com boa reserva ovariana é completamente diferente de uma mulher de 38 anos com AMH baixo e histórico de resposta reduzida em uma estimulação anterior.

Durante o planejamento, podem ser consideradas diferentes doses e tipos de gonadotrofinas (os hormônios utilizados para estimular o crescimento dos folículos), além da maneira como essas medicações serão combinadas e do momento em que serão introduzidas.

Também observamos a resposta ao longo do tratamento.

Os ultrassons permitem acompanhar o crescimento dos folículos e ajudam a decidir se é necessário ajustar a estratégia e quando realizar a maturação final dos óvulos.

Um ciclo anterior pode ensinar muito

Quando uma mulher já passou por uma estimulação, aquele ciclo oferece informações extremamente valiosas. Podemos observar em que etapa do tratamento não obtivemos o resultado esperado, e atuar diretamente naquela etapa.

Quantos folículos começaram a crescer? Eles cresceram juntos ou de maneira desigual? Quantos óvulos foram coletados? Quantos estavam maduros? Como os ovários responderam às doses utilizadas?

Analisar a resposta anterior em cada uma dessas etapas pode permitir ajustes bem direcionados.

Estratégia 4: avaliar o tipo de gatilho para maturação final

Quando os folículos chegam ao estágio adequado, utilizamos uma medicação para desencadear a maturação final dos óvulos antes da coleta.

É o chamado trigger, ou gatilho.

Existem diferentes maneiras de realizar essa etapa, utilizando hCG, agonista de GnRH ou, em situações selecionadas, uma combinação das duas estratégias, conhecida como dual trigger.

Por que isso importa? Porque uma boa resposta à estimulação não depende apenas de quantos folículos cresceram. Também queremos obter óvulos maduros, já que são esses que podem ser vitrificados para utilização futura.

Em algumas situações clínicas, a escolha do gatilho pode fazer parte da tentativa de otimizar a proporção de óvulos maduros.

Mas, novamente, não existe um gatilho universalmente melhor para todas as pacientes.

A própria ASRM destaca que a escolha entre hCG, agonista de GnRH ou dual trigger deve considerar o cenário clínico, inclusive aspectos de segurança como o risco de síndrome de hiperestimulação ovariana.

Portanto, o dual trigger é uma ferramenta possível dentro da estratégia, não uma fórmula para todas as mulheres produzirem mais óvulos.

Estratégia 5: considerar mais de uma estimulação quando o objetivo é acumular óvulos

Agora chegamos a uma questão especialmente relevante para mulheres com baixa reserva ovariana.

Às vezes, o objetivo não é obter muitos óvulos em uma única coleta porque biologicamente isso pode não ser possível.

A estratégia passa a ser acumular óvulos de mais de um ciclo.

Em determinados casos, isso pode ser feito em meses consecutivos.

Existe ainda a possibilidade de realizar duas estimulações dentro de um intervalo mais curto, estratégia conhecida como DuoStim ou dupla estimulação.

Como funciona o DuoStim?

De maneira simplificada, é possível realizar uma primeira estimulação e coleta e, em situações selecionadas, iniciar uma nova estimulação ainda naquele mesmo ciclo ovariano.

Assim, podemos obter dois grupos de óvulos em um período menor.

Essa estratégia pode ser considerada quando existe necessidade de acumular óvulos com maior rapidez ou em circunstâncias nas quais reduzir o intervalo entre as coletas traz uma vantagem prática.

A literatura e as diretrizes atuais reconhecem que múltiplas estimulações podem ser consideradas em alguns cenários e que o DuoStim pode encurtar o intervalo necessário para acumular óvulos.

Isso não significa, porém, que toda mulher com baixa reserva precise fazer DuoStim.

Para algumas, ciclos convencionais consecutivos podem fazer mais sentido. Para outras, a dupla estimulação pode ser uma ferramenta interessante.

É possível aumentar a reserva ovariana?

Aqui precisamos separar duas ideias.

Otimizar uma estimulação é possível. Aumentar a reserva ovariana, no sentido de criar óvulos, não.

Esse é um ponto essencial para evitar promessas que a ciência não consegue cumprir.

Nenhum protocolo de estimulação cria um estoque ovariano.

Nenhum suplemento comprovadamente transforma uma reserva baixa em alta.

Nenhuma dose de hormônio consegue fazer aparecer uma quantidade ilimitada de folículos.

O objetivo de um tratamento bem planejado é tentar obter o melhor aproveitamento possível da reserva que aquela mulher possui naquele momento.

E saber respeitar esse limite também faz parte de uma medicina responsável.

Mais óvulos sempre significam melhor resultado?

Em geral, quanto maior o número de óvulos, maiores as chances de granvidez, já que existe o famoso e tão temido Funil da Reprodução Humana.

Nem todos os óvulos serão maduros, nem todos fertilizarão, nem todos formarão embriões capazes de evoluir e nem toda transferência resultará em nascimento.

Mas quantidade não pode ser analisada sem idade.

Uma das informações mais importantes para o prognóstico continua sendo a idade da mulher.

A idade está fortemente relacionada à qualidade ovocitária, enquanto AMH e contagem de folículos antrais estão muito mais associados à quantidade de óvulos que podemos obter após estimulação.

Por isso, não existe um número universal capaz de garantir um bebê.

O que realmente pode ser feito para tentar otimizar um ciclo?

Em vez de procurar uma técnica milagrosa para “aumentar o número de óvulos congelado”, o caminho mais consistente é construir uma estratégia.

Isso envolve avaliar adequadamente a reserva ovariana, escolher e ajustar o protocolo de estimulação, acompanhar a resposta por ultrassom, definir corretamente o momento da maturação final e considerar mais de um ciclo quando o número obtido não for suficiente para os objetivos reprodutivos daquela mulher.

Em alguns casos, ferramentas como dual trigger ou DuoStim podem entrar nessa estratégia. Em outros, não serão necessárias.

E algumas intervenções frequentemente divulgadas como formas de “melhorar os óvulos” ainda possuem evidências insuficientes para serem recomendadas rotineiramente.

Esse é justamente o motivo pelo qual individualização não significa fazer mais coisas.

Às vezes significa escolher cuidadosamente quais coisas realmente fazem sentido.

Quem é a Dra. Paula Marin?

A Dra. Paula Marin é médica especialista em Reprodução Humana Assistida, com atuação focada em fertilidade feminina, congelamento de óvulos, fertilização in vitro e planejamento reprodutivo.

Seu trabalho é baseado em três pilares:

Capacidade técnica: atualização constante e decisões baseadas nas melhores evidências científicas disponíveis.

Cuidado: acolhimento, escuta e respeito pela história, pelos limites e pelo momento de vida de cada paciente.

Clareza: informações compreensíveis e expectativas realistas para que cada mulher possa participar das decisões sobre sua fertilidade.

Conclusão

Se um ciclo de estímulo ovariano para congelamento de óvulos ou FIV resultou em menos óvulos do que você imaginava, a primeira pergunta não deveria ser: “O que deu errado?”

Talvez a pergunta mais útil seja: “Esse resultado corresponde à minha reserva ovariana e existe alguma estratégia que faça sentido para um próximo ciclo?”

Às vezes haverá espaço para ajustes. Em outros casos, aquele número representa justamente a capacidade biológica dos ovários naquele momento.

Existe técnica. Existe estratégia. Existem diferentes protocolos.

Mas existe também um limite biológico que precisa ser respeitado.

E talvez essa seja uma das informações mais importantes para quem está entrando nesse tratamento: individualizar não é prometer mais óvulos. É usar as ferramentas disponíveis para tentar aproveitar da melhor maneira possível o potencial de cada ovário, com segurança e expectativas realistas.

Autor

  • Especialista em Reprodução Humana Assistida, meu objetivo é ajudar mulheres a realizarem o sonho da maternidade no tempo certo — seja agora ou no futuro. Mais do que protocolos, ofereço acolhimento, escuta e planos reprodutivos personalizados, com destaque para o congelamento de óvulos.

    CRM-SP 129377 • RQE: 69162 • RQE: 691621

Dra. Paula Marin

Especialista em Reprodução Humana Assistida, meu objetivo é ajudar mulheres a realizarem o sonho da maternidade no tempo certo — seja agora ou no futuro. Mais do que protocolos, ofereço acolhimento, escuta e planos reprodutivos personalizados, com destaque para o congelamento de óvulos.

CRM-SP 129377 • RQE: 69162 • RQE: 691621