Receber o diagnóstico de endometriose costuma despertar muitas dúvidas. Para algumas mulheres, a primeira delas nem está relacionada à dor ou ao tratamento da doença. “Será que vou conseguir engravidar?”. Essa preocupação é compreensível. Afinal, a endometriose é frequentemente associada à infertilidade nas redes sociais, em relatos de outras pacientes e até em informações incompletas encontradas na internet.
O problema é que existem dois extremos igualmente prejudiciais.
De um lado, mulheres que acreditam que o diagnóstico significa, automaticamente, que nunca poderão ter filhos.
Do outro, mulheres que minimizam completamente a doença e deixam de pensar no planejamento reprodutivo, perdendo um tempo precioso para preservar sua fertilidade.
A verdade está no equilíbrio.
A endometriose pode afetar a fertilidade, mas isso não significa que toda mulher com a doença terá dificuldade para engravidar.
Entender como essa relação acontece é fundamental para tomar decisões mais conscientes e evitar tanto o medo desnecessário quanto a falsa sensação de segurança.
O que é a endometriose?
Vamos começar do começo! A endometriose é uma doença inflamatória crônica em que um tecido semelhante ao endométrio — camada que reveste o interior do útero — cresce fora da cavidade uterina.
Essas lesões podem atingir diferentes regiões da pelve, como:
- ovários;
- trompas;
- peritônio;
- intestino;
- bexiga;
- ligamentos que sustentam o útero.
Os sintomas variam bastante entre as mulheres. Algumas apresentam dor intensa durante a menstruação, dor nas relações sexuais, dor pélvica crônica ou alterações intestinais. Outras praticamente não apresentam sintomas e descobrem a doença apenas durante a investigação da infertilidade.
Essa variabilidade também acontece quando falamos sobre fertilidade.
Endometriose é sinônimo de infertilidade?
Não. Esse talvez seja o ponto mais importante de todo este assunto.
Ter endometriose não significa que você será infértil. Muitas mulheres com endometriose engravidam naturalmente, sem qualquer tratamento.
Ao mesmo tempo, sabemos que a doença pode dificultar esse processo em parte das pacientes. Estima-se que aproximadamente 30% a 50% das mulheres com endometriose apresentem dificuldade para engravidar.
Isso significa justamente o contrário do que muitas pessoas imaginam: há muitas mulheres com endometriose que conseguem engravidar espontaneamente.
Como a endometriose pode afetar a fertilidade?
A fertilidade pode ser comprometida por diferentes mecanismos. Não existe apenas uma explicação. Na verdade, vários fatores podem atuar ao mesmo tempo.
Inflamação crônica da pelve
A endometriose provoca um processo inflamatório persistente na cavidade pélvica. Esse ambiente inflamatório pode interferir em diferentes etapas da reprodução, tornando o processo menos favorável.
Entre os possíveis impactos estão alterações relacionadas:
- à qualidade dos óvulos;
- ao processo de fecundação;
- ao desenvolvimento inicial do embrião;
- ao funcionamento das trompas.
Nem todas as mulheres apresentam essas alterações da mesma forma, mas esse é um dos principais mecanismos estudados na doença.
Formação de aderências
Outro fator importante é a formação de aderências. As aderências são faixas de tecido cicatricial que podem surgir como consequência da inflamação provocada pela endometriose. Com o tempo, elas podem modificar a anatomia normal da pelve.
Quando isso acontece, estruturas como as trompas podem ter seu funcionamento prejudicado. Como consequência, o encontro entre óvulo e espermatozoide pode ficar mais difícil, assim como o transporte do embrião até o útero.
Comprometimento dos ovários
Em algumas mulheres, a endometriose acomete diretamente os ovários. Nesses casos surgem os chamados endometriomas, que são cistos associados à doença.
Além de aumentarem a inflamação local, os endometriomas podem contribuir para a redução da reserva ovariana, ou seja, da quantidade de óvulos disponíveis.
Dependendo da situação, isso também pode repercutir na qualidade dos óvulos. Esse impacto costuma ser mais relevante quando associado a outros fatores, como idade mais avançada ou doença mais extensa.
Nem toda endometriose tem o mesmo impacto na fertilidade
Uma informação muito importante é que não existe uma única forma de endometriose. Cada mulher apresenta uma doença com características próprias.
Por isso, não faz sentido comparar sua história com a de uma amiga, a de um familiar ou de alguém que você viu na internet.
O impacto da endometriose depende de diversos fatores, entre eles:
- gravidade da doença;
- localização das lesões;
- presença ou não de endometriomas;
- idade da mulher;
- reserva ovariana;
- histórico de cirurgias.
De maneira geral, casos mais leves tendem a ter menor repercussão sobre a fertilidade. Já formas moderadas ou profundas costumam representar um risco maior. Mas isso nunca deve ser analisado isoladamente.
O tempo também faz diferença
Quando falamos sobre fertilidade feminina, existe um fator que continua sendo extremamente importante: a idade.
Mesmo em mulheres sem endometriose, sabemos que a quantidade e a qualidade dos óvulos diminuem naturalmente com o passar dos anos.
Quando a endometriose está presente, esse processo pode ganhar ainda mais relevância em determinadas situações. Por isso, o planejamento reprodutivo passa a ter um papel importante.
Isso não significa que toda mulher com endometriose precise engravidar imediatamente. Mas significa que vale a pena conhecer sua situação atual para fazer escolhas mais conscientes.
Um erro comum: tratar apenas a dor e esquecer da fertilidade
No consultório, uma situação se repete com frequência.
A paciente passa anos tentando controlar os sintomas da endometriose. Faz tratamentos para aliviar a dor. Em alguns casos, realiza cirurgias. Adia o desejo de engravidar porque ainda não é o momento. Tudo isso pode fazer sentido para aquela fase da vida.
O problema é quando, durante esse processo, ninguém conversa sobre fertilidade. Em alguns casos, quando essa avaliação finalmente acontece, já existe uma redução importante da reserva ovariana ou outros fatores que tornam o planejamento mais desafiador.
Por isso, falar sobre fertilidade não significa pressionar uma mulher a engravidar. Significa oferecer informação para que ela possa decidir com autonomia.
Toda mulher com endometriose precisa congelar óvulos?
Não. O congelamento de óvulos não é indicado para todas as pacientes com endometriose. Essa decisão depende de uma avaliação individualizada.
Ela pode ser considerada principalmente quando existem fatores que aumentam o risco de redução da fertilidade ao longo do tempo, especialmente se a gravidez não faz parte dos planos naquele momento.
Entre os aspectos avaliados estão:
- idade;
- reserva ovariana;
- gravidade da doença;
- presença de endometriomas;
- histórico cirúrgico;
- planejamento de vida.
Para algumas mulheres, acompanhar a fertilidade será suficiente. Para outras, preservar óvulos pode fazer parte da estratégia de planejamento reprodutivo. Não existe uma resposta única.
Quais são as possibilidades de tratamento?
Também aqui não existe um único caminho. Algumas mulheres conseguem engravidar naturalmente. Outras podem se beneficiar de tratamentos específicos.
Dependendo do caso, a conduta pode incluir:
- acompanhamento clínico;
- cirurgia quando houver indicação;
- técnicas de reprodução assistida, como a fertilização in vitro (FIV);
- preservação da fertilidade por meio do congelamento de óvulos quando a maternidade será adiada.
O mais importante é entender que a escolha do tratamento depende da história de cada paciente.
Como cuidar da fertilidade quando se tem endometriose?
Se você recebeu esse diagnóstico, algumas atitudes podem ajudar no planejamento do futuro reprodutivo:
- conhecer sua reserva ovariana;
- conversar sobre seus planos de maternidade com o ginecologista ou especialista em reprodução humana;
- entender o estágio da doença;
- evitar decisões tomadas apenas pelo medo;
- mas também não ignorar o tempo biológico.
Quem é a Dra. Paula Marin?
A Dra. Paula Marin é médica especialista em Reprodução Humana Assistida, com atuação voltada ao diagnóstico e tratamento da infertilidade, preservação da fertilidade e planejamento reprodutivo.
Seu trabalho é baseado em três pilares:
Capacidade técnica
Com prática fundamentada nas melhores evidências científicas e atualização constante em medicina reprodutiva.
Cuidado
Com escuta acolhedora e respeito ao momento de vida, aos objetivos e às escolhas de cada paciente.
Clareza
Para traduzir temas complexos em informações acessíveis, ajudando cada mulher a compreender suas possibilidades e participar das decisões sobre sua fertilidade.
Conclusão
A endometriose pode, sim, afetar a fertilidade, mas ela está longe de ser uma sentença de infertilidade.
Muitas mulheres engravidam espontaneamente, enquanto outras precisarão de acompanhamento ou de estratégias específicas para realizar o desejo de ter filhos.
O ponto mais importante é não deixar que o medo conduza suas decisões nem permitir que a falta de informação faça você perder tempo.
Quando existe planejamento reprodutivo, é possível avaliar sua reserva ovariana, compreender como a doença se comporta no seu caso e discutir, de forma individualizada, quais são as melhores estratégias para o presente e para o futuro.
Conhecer sua fertilidade não significa antecipar a maternidade. Significa preservar o direito de fazer escolhas com mais segurança, tranquilidade e consciência.
Especialista em Reprodução Humana Assistida, meu objetivo é ajudar mulheres a realizarem o sonho da maternidade no tempo certo — seja agora ou no futuro. Mais do que protocolos, ofereço acolhimento, escuta e planos reprodutivos personalizados, com destaque para o congelamento de óvulos.
CRM-SP 129377 • RQE: 69162 • RQE: 691621

