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Durante muito tempo, a infertilidade foi tratada como um tema íntimo, quase silencioso. Algo que ficava restrito ao casal, à família ou ao consultório. Mas os números mostram outra realidade.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou suas primeiras diretrizes globais para prevenção, diagnóstico e tratamento da infertilidade, reconhecendo oficialmente algo que quem vive esse problema já sabe há muito tempo: infertilidade é uma condição de saúde, não uma falha pessoal, não uma escolha, não uma punição.

Segundo a própria OMS, 1 em cada 6 pessoas em idade reprodutiva no mundo é afetada pela infertilidade.

Esse dado muda o tamanho da conversa.

Porque, quando tanta gente é impactada, já não estamos falando de um problema individual. Estamos falando de um tema de saúde pública, de acesso à informação e de direito ao cuidado.

O que a nova diretriz da OMS traz de mais importante

A nova diretriz da OMS reforça uma mudança conceitual importante: a infertilidade precisa ser vista como uma condição que merece prevenção, diagnóstico adequado, tratamento acessível e cuidado integral.

Isso significa que o sistema de saúde não deveria tratar a fertilidade como um luxo ou como algo opcional. Deveria tratá-la como parte da atenção básica e especializada à saúde reprodutiva.

A OMS recomenda, entre outros pontos:

  • ouvir o indivíduo ou casal com cuidado e respeito às suas preferências;
  • avaliar necessidade de apoio psicológico e social;
  • incorporar orientações sobre fertilidade na educação em saúde;
  • discutir plano terapêutico com clareza, incluindo riscos, custos e efetividade;
  • começar, quando indicado, por abordagens menos complexas, mas eficazes.

Na prática, a mensagem é clara: informação, prevenção e acolhimento importam tanto quanto os procedimentos médicos.

Por que a infertilidade está aumentando?

Essa é uma pergunta importante e a resposta não é simples.

A infertilidade é multifatorial. Ou seja: ela não tem uma única causa.

Idade e reserva ovariana

Do ponto de vista biológico, a idade segue sendo um dos fatores mais importantes, especialmente para as mulheres. A reserva ovariana diminui progressivamente ao longo do tempo, e essa queda se torna mais significativa após os 35 anos.

Muitas mulheres deixam para engravidar mais tarde sem nunca terem recebido orientação adequada sobre fertilidade. E isso expõe uma falha importante: falamos muito sobre evitar gravidez, mas ainda falamos pouco sobre como preservar a fertilidade.

Estilo de vida

A OMS reforça a importância de fatores como:

  • alimentação;
  • atividade física;
  • tabagismo;
  • consumo de álcool;
  • peso corporal.

Esses aspectos afetam a fertilidade feminina e masculina.

Infecções sexualmente transmissíveis

Outro ponto importante é a prevenção e o tratamento das ISTs. Quando não tratadas, elas podem comprometer a fertilidade no futuro.

Condições de saúde muitas vezes negligenciadas

Aqui entram doenças como:

  • endometriose;
  • síndrome dos ovários policísticos (SOP);
  • varicocele;
  • alterações tubárias;
  • doenças uterinas.

Em outras palavras: muitas pessoas só descobrem que sua fertilidade foi impactada quando já estão tentando engravidar.

Endometriose e infertilidade: uma relação que precisa ser levada a sério

A endometriose é uma das condições que mais merecem atenção dentro dessa nova visão da infertilidade.

Ela é uma doença inflamatória crônica, muitas vezes subdiagnosticada, que pode afetar não apenas a qualidade de vida, mas também a fertilidade.

Estima-se que 30% a 50% das mulheres com endometriose possam apresentar dificuldade para engravidar.

Essa relação acontece por diferentes mecanismos:

  • aderências e alterações anatômicas;
  • comprometimento das trompas;
  • inflamação do ambiente pélvico;
  • possível impacto na qualidade dos óvulos;
  • dificuldade de implantação embrionária em alguns casos.

Mas é importante deixar claro: ter endometriose não significa que você será infértil.

Muitas mulheres com endometriose engravidam espontaneamente.

O ponto central é que essa paciente precisa ser bem orientada, acompanhada e avaliada precocemente.

O que a OMS fala sobre prevenção e por que isso importa tanto

Um dos pontos mais fortes da diretriz é o foco em prevenção.

A OMS recomenda que informações sobre fertilidade e infertilidade sejam oferecidas à população em idade reprodutiva em:

  • escolas;
  • unidades básicas de saúde;
  • serviços de saúde sexual e reprodutiva.

Isso é fundamental. Porque planejamento reprodutivo não é apenas decidir evitar uma gravidez. É também entender:

  • como funciona o relógio biológico;
  • o que é reserva ovariana;
  • quando vale a pena investigar a fertilidade;
  • quais hábitos de vida ajudam ou prejudicam a saúde reprodutiva.

Esse tipo de letramento muda trajetórias.

Como a diretriz orienta o diagnóstico da infertilidade

A OMS também propõe uma investigação mais racional e custo-efetiva.

Na prática, isso significa pedir exames de forma mais estratégica e menos automática.

Na mulher

A avaliação pode incluir:

  • confirmação da ovulação;
  • investigação da reserva ovariana, quando necessário;
  • avaliação uterina;
  • investigação tubária.

A diretriz reforça que a idade é o principal marcador de reserva ovariana, e que exames como AMH, FSH e contagem de folículos antrais devem ser usados com critério clínico.

No homem

A avaliação seminal segue sendo fundamental.

A OMS recomenda repetir o espermograma apenas quando houver alteração fora dos parâmetros de referência  e respeitando o intervalo adequado para nova análise.

Isso ajuda a evitar excesso de exames e atraso desnecessário na investigação.

Tratamento: menos improviso, mais estratégia

A diretriz da OMS organiza o tratamento da infertilidade de forma progressiva e baseada em evidência.

Na síndrome dos ovários policísticos (SOP)

A recomendação é:

  • letrozol como primeira opção para indução de ovulação;
  • mudanças de estilo de vida como parte essencial do manejo;
  • gonadotrofinas antes de cirurgia, quando houver falha dos medicamentos orais;
  • FIV nos casos persistentes.

Na doença tubária

Para mulheres com menos de 35 anos e doença tubária leve ou moderada, a cirurgia pode ser considerada antes da FIV. Já em casos graves ou em mulheres com 35 anos ou mais, a FIV tende a ser o caminho preferencial.

Na infertilidade inexplicada

A diretriz sugere uma abordagem por etapas:

  1. manejo expectante por 3 a 6 meses;
  2. inseminação intrauterina estimulada;
  3. fertilização in vitro.

Essa progressão evita tanto a pressa quanto a demora excessiva.

E onde entra o congelamento de óvulos nessa conversa?

Embora essa primeira diretriz da OMS ainda não aprofunde o tema da preservação da fertilidade, ela abre uma porta importante para essa discussão.

Porque, se falamos em prevenção, planejamento reprodutivo e cuidado antecipado, o congelamento de óvulos entra, sim, como parte dessa conversa em alguns casos.

Especialmente quando falamos de mulheres com:

  • endometriose;
  • baixa reserva ovariana;
  • tratamento oncológico programado;
  • desejo de adiar a maternidade com entendimento real dos limites biológicos.

O congelamento de óvulos não é uma garantia de gravidez futura. Mas pode ser uma estratégia para preservar possibilidades, principalmente quando existe risco de perda reprodutiva com o tempo ou com doenças específicas.

O cuidado não pode ser só técnico

A OMS também enfatiza algo que faz toda a diferença no consultório: o cuidado deve ser centrado na pessoa, não apenas no resultado reprodutivo.

Isso significa considerar:

  • sofrimento emocional;
  • impacto psicológico;
  • estigma social;
  • desgaste de tentativas repetidas;
  • cansaço físico e mental.

Infertilidade não é só exame. Não é só laudo. Não é só tratamento.

Infertilidade mexe com identidade, com expectativas e com futuro.

Por isso, acolhimento e informação de qualidade são parte do tratamento.

O que essa diretriz muda na prática?

Ela muda a forma como a infertilidade precisa ser encarada.

Muda a conversa. Muda a responsabilidade dos sistemas de saúde.

E muda também a forma como você deve olhar para a sua saúde reprodutiva.

A grande mensagem é essa:

  • não espere a dificuldade aparecer para começar a entender sua fertilidade;
  • não trate fertilidade como algo secundário;
  • não normalize falta de informação.

Planejamento reprodutivo é um direito. E informação de qualidade é parte desse direito.

Quem é a Dra. Paula Marin?

A Dra. Paula Marin é médica especialista em Reprodução Humana Assistida e atua com foco em cuidado reprodutivo individualizado, acolhimento e clareza na comunicação.

Seu trabalho é baseado em três pilares:

Capacidade técnica
Com atualização constante e prática guiada por evidências científicas.

Cuidado
Porque cada paciente chega com uma história única, com dores, expectativas e tempos diferentes.

Clareza
Porque decisões reprodutivas não devem ser tomadas no escuro.

Conclusão

A nova diretriz da OMS faz algo muito importante: ela tira a infertilidade do silêncio. E isso muda tudo.

Quando a infertilidade passa a ser reconhecida como condição de saúde, ela deixa de ser um peso carregado em segredo e passa a exigir o que sempre deveria ter exigido: informação, acolhimento, diagnóstico correto e acesso a tratamento.

Se você tem endometriose, dúvidas sobre fertilidade, medo de adiar a maternidade ou simplesmente quer entender melhor o seu corpo, essa conversa precisa começar antes.

Porque, em reprodução humana, o tempo importa. Mas o acesso à informação certa, no momento certo, importa ainda mais.

 

Autor

  • Especialista em Reprodução Humana Assistida, meu objetivo é ajudar mulheres a realizarem o sonho da maternidade no tempo certo — seja agora ou no futuro. Mais do que protocolos, ofereço acolhimento, escuta e planos reprodutivos personalizados, com destaque para o congelamento de óvulos.

    CRM-SP 129377 • RQE: 69162 • RQE: 691621

Dra. Paula Marin

Especialista em Reprodução Humana Assistida, meu objetivo é ajudar mulheres a realizarem o sonho da maternidade no tempo certo — seja agora ou no futuro. Mais do que protocolos, ofereço acolhimento, escuta e planos reprodutivos personalizados, com destaque para o congelamento de óvulos.

CRM-SP 129377 • RQE: 69162 • RQE: 691621